domingo, 11 de novembro de 2012
O Amor nos tempos de Cólera
Antes
de mais nada, é preciso registrar que trata-se de um excelente livro. Gabriel
García Marquez não tem o menor pudor de usar todos os recursos de sedução da
língua para nos enredar, nos prender. E os usa com uma maestria! Tem momentos
em que o leitor se pergunta como as tantas páginas que ainda restam serão
preenchidas, já que a história, em seu principal, já foi contada. E é aí que
entra o grande truque de Gabo: ele não tem pressa, ele está se divertindo e
consegue fazer com que o leitor se divirta com ele - conta casos, fala de
personagens que nem tanta importância têm, cria imagens literárias
deslumbrantes ou repugnantes, enfim, deita e rola. Mas tudo isso com um
talento...
Quanto à história de amor, para mim, "O Amor nos Tempos do Cólera" é
um sofisticado pastiche sobre as grandes histórias de amor. Gabo nos engana
desavergonhadamente, propondo contar a história de amor de Fermina e
Florentino, quando, na verdade, nos encanta e nos enreda com as comoventes
banalidades do amor cotidiano de Fermina e Urbino.
Esperava encontrar em Florentino a bela imagem de um Romeu, mas passei todo o
livro tendo que lutar contra o horror que o personagem me causou. Em uma cena,
ainda no início do livro, em que Fermina foge dele no mercado, agradeci a Gabo
por expressar tão bem meus sentimentos e estava ao lado dela, correndo rápido
para bem longe daquele ogro.
Já por Urbino, me apaixonei. Suas manias de velho, sua honestidade, a
modernidade de seus pensamentos, a sua elegante rendição a um amor com o qual
não contava, mas que soube aproveitar por cada minuto de seu longo casamento,
me encantaram.
Me identifiquei com Fermina, mesmo quando a achava passiva, fria ou um tanto
cruel. Ela pode não ser a mulher que eu sou hoje, mas trago-a no sangue como um
legado de todas as mulheres que foram Fermina até chegar a mim. Porque, mesmo
sendo uma mulher do seu tempo, ela também não tinha medo de respirar novos
ventos, não tinha medo de experimentar, de conhecer, de aceitar o novo em sua
vida com aquela elegância sépia de tempos passados.
Ao final desta segunda leitura confirmei que, para mim a verdadeira história de
amor é entre Fermina Daza e o marido, Juvenal Urbino. Não gosto de Florentino
Ariza - por mais que ele evolua muito mais para o final do livro. Mas há algo
de repugnante nele, de água parada. Por isso, nas últimas páginas, senti uma
saudade enorme do velho Juvenal e uma grande angústia por deixar Fermina dentro
daquele barco, presa àquela figura repulsiva.


