quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
ESCRITORES BRASILEIROS E SUAS MANIAS
1) Antonio Prata, autor de “Meio intelectual, meio de esquerda “
Havendo silêncio e Coca Zero, escrevo em qualquer lugar. O ideal é que seja logo cedo, com a cabeça fresca, mas nem sempre é possível. (Se você vive da escrita, acaba sendo agente literário, secretário e office boy de si mesmo, o que obriga a dedicar boa parte do dia a negociar valores, preencher formulários, ler contratos, emitir notas, frequentar papelarias e agências dos correios. Curioso paradoxo: quanto mais escritor você se torna, menos tempo tem para escrever.) Além de silêncio, Coca Zero & cuca fresca, uma impressora é muito bem vinda. Não sei por que fenômenos óticos ou metafísicos, palavras repetidas, frases truncadas e erros ortográficos se escondem na tela do computador, mas revelam-se na pagina impressa. Para escrever uma crônica, portanto, consumo uma pequena floresta em celulose. Sem impressora o processo é mais lento, mas flui. Impossível mesmo é escrever com barulho ou sem Coca Zero. Aí, não tem jeito.
2) Evandro Affonso Ferreira, autor de “Minha mãe se matou sem dizer adeus”
Escrevo todo dia à mão nas mesas de confeitarias e cafés e livrarias da cidade. Carrego sempre na minha pequena mochila um caderno e algumas canetas. À noite passo tudo para o computador. Meus três últimos livros foram escritos assim.
3) Lygia Fagundes Telles, autora de “Invenção e memória”
Gosto de escrever ouvindo música sem palavras, música clássica. As personagens já exigem muito do escritor, o tempo é delas, então não dá para fazer mais nada além de ouvi-las.
4)Alberto Mussa, autor de “O senhor do lado esquerdo “
Não sei se são manias, no sentido estrito, mas há certas condições indispensáveis ao meu processo criativo. Primeiro, só escrevo em casa, principalmente na minha mesa, embora possa mudar de ambiente de vez em quando. Isso porque escrevo à mão e posso carregar meu caderno pautado para o quarto, a cozinha ou o banheiro. Se estou escrevendo, ando com ele pela casa, debaixo do braço, o dia todo. Este caderno, é claro, nunca sai do apartamento. Antes, porém, de começar a escrever, tenho que fazer o projeto integral do livro, faço mapas, esquemas, lista das personagens, com suas características e principais intervenções na história. Só depois do livro todo estruturado é que começo a escrever. Talvez minha grande mania seja, durante essa fase de estruturação, a de contar, oralmente, a história do livro, para as pessoas próximas (que muitas vezes não têm nenhuma relação com o mundo literário). Só me sinto capaz de escrever quando a história amadurece a ponto de poder ser verbalizada.
5) Ignácio de Loyola Brandão, autor de “A altura e a largura do nada”
Mania é fechar todas as portas de armários e a porta do estúdio. Arrumo a mesa. Deixo um dicionário analógico do lado direito. Um bloco de anotações também fica próximo. Nele anoto andamento, duvidas, problemas, palavras consultadas, sinônimos.As vezes nem toco nele, mas preciso dele ali. Meus cadernos e cadernetinhas são todas Claire Fontaine, aquela que os estudantes franceses usam no dia a dia do liceu. Quando vou,compro. Quando vão, peço, me trazem. Quando salvo um texto, preciso escrever o nome do arquivo, se não esqueço no dia seguinte. Talvez seja o Alzheimer chegando, talvez seja praticidade.
Faço minhas crônicas para o Estado e para a Tribuna, de Araraquara. Faço crônicas eventuais para house organs. Tenho os livros institucionais. As cartas. Ah, não consigo começar nada sem limpar os e-mails. Nisso levo, às vezes, meia hora. Por isso começo cedo, cerca de 6 da manhã. Quando escrevo um romance, ou algo meu mais longo, começo às 5 e vou até mais ou menos 10.
6) João Almino, autor de “Cidade livre”
Não tenho manias ou superstições para escrever e, sim, rotina. Há décadas descobri que sem disciplina seria difícil produzir. Escrevo diariamente durante duas ou três horas tão logo acordo, antes de tomar café ou fazer qualquer outra coisa. Se não tiver o que escrever, revejo o que escrevi. Posso escrever num jato e dedico muitíssimo mais tempo depois às revisões. Não ponho despertador, mas isso é em geral muito cedo. No começo tinha o hábito de andar com um caderninho no bolso para anotar ideias ao longo do dia. Hoje no máximo levo uma folhinha de papel em branco no bolso, onde raramente anoto uma ou outra ideia. Nunca escrevo ficção fora dessas horas da manhã. O resto do dia está dedicado a outras atividades. À noite, sempre que posso, leio e, apenas quando absolutamente necessário, vou a bibliotecas, aos sábados, para fazer alguma pesquisa.”
7) Juliana Frank, autora de “Quenga de plástico “
Tenho poucas manias. Escrever é uma delas. Eu crio manias em cima dessa mania. Só escrevo roteiro com fonte courier. E literatura, fonte verdana. Daí eu respiro, paro em frente a folha branca, ameaçadora, estendo as mãos e agito os dedos nervosamente pelos teclados. Enfim, sai uma primeira frase. Acredito que ganhei o caminho e me levanto da mesa, tomo um banho, porque só escrevo se eu estiver limpa e com a franja imperiosamente penteada. Quando acerto muito na produção, resolvo logo ir para o bar. Sento lá na mesa, toda entusiasmada, sei que faço parte da confraria. As vezes grito: hoje quem paga sou eu. Com todos à minha volta, amigos, desconhecidos, cachorros perdigueiros e mulheres de batons comunistas vermelhos, penso: tudo isso é muito chato. Começo a me coçar. Saco meu caderno do bolso e rabisco. Em poucos minutos estou no táxi. Num tom de urgência, peço uma caneta pro motorista e reclamo que a minha já não presta mais. Saio batendo a porta do carro e as vezes esqueço de pagar. Sento em frente ao computador e recomeço de onde parei, com as devidas anotações. No começo, é proibido falar com os outros e atender telefone. Mas, assim que eu tenho a história já posso ligar pros meus amigos do bar e convidá-los para terminarem a noite na minha casa. E é assim, no meio da festa, que eu me divido entre o texto e os acontecimentos reais. Todos vão embora e eu continuo. Horas e horas mexendo e remexendo. Se eu tenho a história, posso escrever na banheiro, em casamentos e funerais, a menos que o padre não fale muito. Quer dizer, escrever é muito difícil. Porque é difícil começar, tomar coragem. Mais difícil é parar. A melhor parte é olhar o feito, e depois dormir, vinte das vinte e quatro horas do dia. E acordar com um semblante melhor do que o dos gatos.
8) Marcelo Benvenutti, autor de “Arquivo morto”
Quando vou escrever sempre sai tudo de uma vez só. Quase sempre rola de dar um tempo e se possível, e for dia, caminhar sem nenhum destino por uma meia hora. Escrevo em silêncio no escritório onde trabalho antes do meio-dia, pois a fome acelera o pensamento, mas também não é o padrão. Outras vezes tampo o cérebro nos fones de ouvido e deixo rolar algo que funcione como um paredão. Já foi Sabbath, Beethoven, Supergrass, tem sido Oasis, mas pode rolar Neil Young, então me alieno de vez do que rola à volta e escrevo. Café ajuda, mas vinho, na dose certa, é bem melhor. Não chapa a ponto de escrever muita bobagem, poesia quase sempre, e deixa a cabeça se libertar de certas amarras. Já escrevi tomando cerveja, mas, admito, tenho que limpar quase tudo depois. Vira igual festa de guri, lata de ceva e bagana pra todo lado. Sem falar na dor de cabeça; certa vez vi uma entrevista de um físico, português, não é piada, e ele disse ter ideias libertadoras de suas experiências quando está de ressaca. A ressaca limpa a mente do que nos atrapalha. Só resta o que nos interessa. Mas isso foi antes de eu ser pai. Agora escrevo quando o Lorenzo deixa. Por exemplo, ele está acordado, 3 e meia da manhã, e eu me pilho a escrever sobre minhas manhas pra escrever escutando o Axl Rose desafinar no show do Guns’N Roses ao vivo pela internet. Pode? Pode. O escritor também é um ser que se adapta ao habitat. Foda é o habitat se adaptar. Mas o habitat, afinal, que se dane, não é?
9) Tony Belloto, autor de 'No buraco”
Desde que saí do armário e assumi que sim, eu era um escritor, e lá se vão quase vinte anos, meu “processo” de escrita sofreu grandes transformações. Na primeira fase eu emburacava e virava noites, numa demonstração de inexperiência, que me custou dias perdidos, terrores noturnos e quase um colapso nervoso. A segunda fase, inspirada em Hemingway, foi a de levantar cedo (antes de o sol, aquele que também se levanta, nascer) e escrever até o meio da manhã, com a cabeça descansada e despoluída, e depois atravessar o dia e a noite em distrações mundanas até chegar a hora de escrever de novo, na manhã seguinte. Para um músico de rock, casado e com filhos pequenos, não preciso dizer que o método foi um fracasso total. Como acordar antes de o sol nascer se meia hora atrás eu ainda estava no palco, tocando? E ao nascer do sol o caçula acordou, cheio de gás, gritando “papai”? Hoje em dia acho que alcancei uma espécie de equilíbrio, e escrevo nos dias da semana em que não faço shows. Escrevo por umas duas horas de manhã, paro para almoçar, durmo um pouco depois do almoço, e retomo o trabalho lá pelas 16:00hs. Escrevo até às 18:00hs, por aí, e depois pratico algum exercício físico, única forma de despoluir minha mente das obsessões e manias que um livro desperta. Nos fins de semana, quando viajo com a banda pra tocar, releio e reviso o que escrevi durante a semana. Minha única “mania”, quando escrevo, é, seguindo o conselho de García Márquez, sempre parar a narrativa num lugar em que eu saiba pra onde ela vai, no dia seguinte.”
10) Nick Farewell, autor de “Mr. Blues & Lady Jazz”
Sou metódico. Deve ser por causa do meu passado engenheiro. Começo a escrever quando já sei o começo, meio e fim. Os meus esboços ou esqueletos se assemelham a um complexo desenho técnico. Quase um método Allan Poe. Escrevo direto no computador ou à mão. Gosto de escrever à mão quando a velocidade da escrita diminui. Curiosamente, eu me obrigo a frequentar os lugares ou cenários que poderiam ser do livro. Vou coletando e ouvindo histórias que posteriormente podem entrar para a narrativa. Muitas vezes eu acabo entrando até involuntariamente. Recentemente viajei para escrever o novo romance, e na casa de um casal de amigos onde me hospedei acabei me vendo envolvido na briga de casais que era o tema central do livro. O mais engraçado é que, mesmo depois de terminar, não é raro as histórias ficarem se repetindo na vida real. Penso à exaustão, deixo decantar por um tempo (muitas vezes por muito tempo) na tentativa do incorporar o inconsciente. Só depois escrevo.
11) Santiago Nazarian, autor de “O prédio, o tédio e o menino cego”
Antes de tudo, não consigo escrever com ninguém na minha casa, mas isso é tranquilo porque moro sozinho e não costumo receber hóspedes. Televisão ligada também não dá. Um sonzinho já pode ajudar a dar clima. MSN ligado é ok. Tenho escrito mais de manhã, logo ao acordar, tomando café, coca-cola, café, coca-cola, até um ponto em que estou tão pilhado de cafeína que não consigo mais pensar, daí saio pra academia.
E vocês seguem algum ritual antes de começar a escrever no blog, livro ou até mesmo antes de iniciar a leitura de um novo livro??



