quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

“Por mais mesquinha que seja sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeito até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja. Talvez você possa ter algumas horas agradáveis, emocionantes, gloriosas, mesmo num asilo de pobres. O poente se reflete nas janelas do albergue de mendigos com o mesmo fulgor com que brilha na morada dos ricos; a neve se dissolve em ambas as portas na mesma época da primavera. Não vejo por que um espírito sereno não possa viver com o mesmo contentamento e com pensamentos alegres num asilo ou num palácio. Muitas vezes me parece que os pobres da cidade são os que vivem a vida mais independente de todas. Pode ser que simplesmente tenham a grandeza suficiente para receber sem temores. Muitos homens se julgam acima de aceitar sustento do município; mas amiúde não estão acima de se sustentar por meios desonestos, o que deveria ser mais vergonhoso. Cultive a pobreza como uma horta, como a sálvia do sábio. Não se incomode muito em ter coisas novas, sejam roupas ou amizades. Torne-as do avesso; retorne a elas. As coisas não mudam; mudamos nós. Venda suas roupas, conserve seus pensamentos. Deus verá que você não precisa de ocasiões sociais. Se eu estivesse confinado a um canto de um sótão por todos os meus dias, como uma aranha, o mundo continuaria igualmente vasto para mim, enquanto eu estivesse com meus pensamentos. O filósofo disse: “De um exército de três divisões pode-se tirar o general e instaurar a desordem; do homem, o mais vulgar e abjeto, não se pode tirar o pensamento”. Não fique tão ansioso em se desenvolver, em se sujeitar a muitas influências em jogo; tudo isso é dissipação. A humildade, tal como a escuridão, revela as luzes celestiais. As sombras da pobreza e da mesquinharia se juntam ao nosso redor, “e eis que a criação se abre à nossa vista.” Amiúde somos lembrados de que, fosse-nos concedida a riqueza de Creso, nossos objetivos ainda deveriam ser os mesmos, e nossos meios essencialmente os mesmos. Além disso, se você está tolhido em seu nível por causa da pobreza, se não pode, por exemplo, comprar livros e jornais, em verdade está apenas confinado às experiências mais significativas e vitais; vê-se obrigado a lidar com o material que rende mais açúcar e mais amido. É a vida perto do osso a mais doce. Você não corre o risco de ser frívolo. Ninguém jamais perde num nível superior. A riqueza supérflua só pode comprar o supérfluo. Não é preciso dinheiro para comprar o necessário à alma.”

Thoreau - Winter.